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Entre malas, andadores e desafios - bastidores de um voo de férias em famila.

Atualizado: 20 de jan.

Viajar de férias em família nunca começa no aeroporto, começa bem antes, no momento em que a mala ainda está aberta na cama e a cabeça está trabalhando loucamente para não esquecer de nada. No nosso caso, tinha um detalhe extra: sair de um inverno na Espanha para entrar direto no verão brasileiro, tentando encaixar biquínis, chinelos e roupas leves dentro de uma rotina ainda cheia de casacos e cachecóis. E além disso, pensar que o clima de São Paulo pode mudar a cada minuto, não podemos esquecer de calças leves e casacos.

 

Quando a gente fala em arrumar a mala, muita gente pensa só em roupas, sapatos e necessários, mas para nós o conceito de “bagagem” é bem mais amplo.  Além das malas de viagem, entram em cena o andador do Gabriel, as muletas, os apoios de banheiro (que desta vez não levamos, mas deveria ter levado, pois ajuda muito) e remédios que garantem que uma viagem com conforto e segurança.

 

No papel, “ir para o aeroporto” é uma linha simples no roteiro; na vida real, é quase uma operação de guerra.  Desta vez estávamos com quatro malas grandes, um andador, um par de muletas, uma mala de mão e uma mochila – coisa que simplesmente não cabe em um carro comum, então a solução foi alugar uma van só para conseguir levar a nossa pequena mudança móvel até o embarque.

 

O check-in foi tranquilo apesar de não conseguirmos marcar os assentos, não sei o que aconteceu, mas este foi o maior estresse da viagem. Além disso, normalmente pedimos assistência especial na companhia aérea, porque isso faz toda a diferença na hora de embarcar com o Gabriel e com o andador.  Como chegamos cedo, acabamos não usando a assistência e só descobrimos em cima da hora que o primeiro voo, num avião pequeno, seria feito na pista, subindo a escadinha da aeronave, sem “finger”.  Entrar com o Gabriel na aeronave foi tranquilo, e se locomover com as muletas dentro do avião também, apesar do aperto que são estes corredores de aviões pequenos. Mas o andador virou motivo de estresse: sem a equipe de assistência para garantir que o equipamento fosse corretamente acomodado, tivemos que pedir ajuda e confiar em um funcionário da cia aérea para cuidar de algo que, para nós, é absolutamente essencial. No final tudo certo.

 

Em Portugal, a assistência já estava nos esperando, pegamos o andador, a mala de mão, eles nos ajudaram a seguir para o próximo embarque, mas a tensão ainda não tinha acabado. Escrevendo parece até fácil, mas lá na hora, é difícil. Somos sempre os últimos a sairmos, temos que pegar todas as coisas, malas, muletas e o que mais tiver, precisamos avisar que tem o andador e que ele precisa estar com a gente, que não pode ser despachado para o destino final, por que como vocês devem saber, as coisas podem ser extraviadas e não podemos ficar sem andador.

 

Chegando no próximo embarque, como já tinha falado, não tínhamos conseguido marcar assentos antecipadamente e, mesmo explicando a situação, remanejar lugares não era algo simples, e dependia da boa vontade de outras pessoas que, na maioria das vezes, não fazem ideia do que significa viajar com alguém que precisa de apoio extra para tarefas tão básicas quanto ir ao banheiro.  É cansativo, é lento, é cheio de etapas que, para muitas famílias, são automáticas, mas que para a nossa exigem planejamento, paciência e, muitas vezes, justificativas para desconhecidos que acham que é exagero, drama ou “frescura”.

 

No final, não conseguimos sentar exatamente lado a lado com o Gabriel; ficamos apenas relativamente próximos, mas não juntos como gostaríamos.  O comissário de bordo garantiu que faria o possível para que a viagem fosse tranquila.

 

Logo depois da decolagem, o Gabriel deixou o celular cair entre as poltronas, um daqueles imprevistos banais que, na nossa realidade, deixam de ser banais.  Ao tentar pegar o aparelho, ele acabou cortando o dedo em algum parafuso da estrutura do assento, o que gerou preocupação imediata do comissário, que correu atrás de um simples band-aid – que, claro, não estava ali à mão e precisou ser procurado.  Quando finalmente tudo se resolveu, o Adriano olhou para o comissário e, com toda a calma possível, explicou: “Tá vendo? É por isso que a gente precisa sentar do lado dele”, lembrando que a dificuldade motora do Gabriel torna qualquer movimento mais lento, mais desajeitado e, portanto, mais vulnerável a esse tipo de situação.

 

A partir desse episódio, algo mudou claramente na postura do comissário de bordo.  Visivelmente constrangido, ele passou a acompanhar o Gabriel com uma atenção muito maior: todas as vezes que passava por mim, fazia quase um relatório – se ele tinha comido, se tinha bebido água, se estava confortável, se precisava de alguma coisa.  Como o Adriano estava fisicamente mais perto do Gabriel e eu um pouco mais distante, essa comunicação constante servia para me deixar mais tranquila.

 

Quando o avião pousou no Brasil, a assistência já estava nos esperando, o que tornou a saída em si bem mais tranquila, mas sempre com a preocupação de pager malas, muletas e andador.  Ainda assim, mesmo com prioridade solicitada, as malas demoraram uma eternidade para aparecer na esteira de Guarulhos, algo que, infelizmente, não é novidade para quem depende desse tipo de cuidado no aeroporto.  Com toda a bagagem – malas, andador, muletas, mais cansaço acumulado – uma van já estava contratada para nos levar para casa, porque, por melhor que seja a vontade da família em buscar a gente, logisticamente seria impossível encaixar tudo em carros comuns.

 

Viajar é uma delícia, sim, mas existe um bastidor emocional e logístico que quase nunca aparece nas fotos do embarque.  Para quem olha de fora, pode parecer exagero querer assentos juntos, pedir assistência, insistir em prioridade; para quem vive isso, cada pequeno “não” aumenta o risco de algo dar errado e o nível de estresse de um jeito que não cabe na franquia de bagagem.  Talvez, se mais pessoas soubessem o que passa pela nossa cabeça em cada etapa – da lista de remédios ao medo de um simples corte no dedo – houvesse um pouco mais de empatia e disposição em ceder um lugar, em ouvir, em acreditar que não é frescura.

 

No fim, a viagem de ida foi boa, e deixou ainda mais claro como pequenos gestos podem transformar a experiência de quem viaja com necessidades especiais.


 



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